Olho por olho, dente por dente – Vingança ou Justiça?

25/08/2015 12:21
                         
“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim revogar mas cumprir.”
Mateus 5:17
 
Uma das maiores críticas ao Velho Testamento (V.T) bíblico e por consequência a Deus é afirmar que a sua Lei (dada a Moisés) mostra violência e vingança. Alguns até afirmam que Jesus nada tem a ver com o Deus do V.T., desconhecendo até que em todo o seu discurso Jesus louva todo o texto do V.T. credibilizando a totalidade das escrituras (Lucas 24:44).

 

Uma das disposições da Lei de Deus, “olho por olho, dente por dente” ou lei de talião é a base para tais críticas e neste artigo demonstraremos que essas só podem ser por desconhecimento das escrituras ou má-fé na análise das mesmas.
Nós já escrevemos sobre este assunto e recomendamos a leitura do texto nas referências (1), mas aqui vamos incidir mais sobre a disposição legal “Olho por olho, dente por dente”, que se devidamente explicada resolve toda esta questão de debate entre crentes e críticos.
 

A Lei de talião

“Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará”.
Levítico 24:19-20
“Olho por olho, dente por dente” é um mandamento que é frequentemente distorcido para justificar a vingança pessoal. Até mesmo muitos cristãos pensam que o mandamento fala de vingança pessoal e por isso argumentam que este mandamento foi abolido no Novo Testamento. Afinal, Jesus não nos ensinou a perdoar?
O fato é que este mandamento somente autoriza a aplicação da justiça pública administrada por juízes. O propósito deste artigo é demonstrar que o princípio moral que rege este mandamento, além de não ter sido abolido, permanecerá, não somente até o fim do mundo, mas até mesmo na eternidade.

 

1-A Bíblia condena a vingança pessoal do início ao fim

Primeiro, o Velho Testamento, tanto quanto o Novo Testamento, ensina a perdoar e é contrário a ideia de vingança pessoal. “Olho por olho, dente por dente” é um mandamento que encontramos no vigésimo-quarto capítulo de Levítico. Mas somente cinco capítulos antes, encontramos o seguinte:
“Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR”.
Levítico 19:17-18

 

Aqui somos ensinados a amar/respeitar o nosso próximo como a nós mesmos. Somos informados aqui que o amor ao próximo inclui as obrigações de: primeiro, não odiá-lo em nosso coração, segundo, não deixar de exortá-lo quando ele estiver em pecado, terceiro, não se vingar dele e, quarto, não guardar ira contra ele. Aqui nós temos, então, uma clara proibição de vingança no mesmo livro que ordena “olho por olho, dente por dente”. Sendo assim, não temos qualquer base racional para dizer que exista uma contradição entre as duas coisas. A contradição somente existe a partir do momento em que os homens distorcem o significado de “olho por olho”, diferente do sentido original do mandamento que encontramos em Levítico.
Existem ainda muitas mais passagens bíblicas no Velho Testamento que contrariam a ideia de vingança:
“Não digas: vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor e ele te livrará”.
Provérbios 20:22
“Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e quando tropeçar, não se regozije o teu coração; para que o Senhor não o veja, e isso seja mau aos seus olhos, e desvie dele, a sua ira”.
 Provérbios 24:17-18
“Não digas: Como ele me fez a mim, assim lhe farei a ele; pagarei a cada um segundo a sua obra”.
Provérbios 24:29
 
“Olho por olho, dente por dente”, em seu contexto original, não contradiz nada disso. Para entender porque não contradiz, precisamos entender a função dos magistrados:
Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o SENHOR teu Deus te der entre as tuas tribos, para que julguem o povo com juízo de justiça. Não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas, nem receberás subornos; porquanto o suborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus”.
Deut 16:18-20

 

A função dos juízes é julgar crimes em defesa das vítimas. Juízes devem zelar somente pela justiça e jamais pelos seus próprios interesses. Por isso diz: “não farás acepção de pessoas, nem receberás subornos”. E também:
“Uma mesma lei tereis; assim será para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o SENHOR vosso Deus”.
Levítico 24:22

 

2- Pena proporcional ao delito

Em Levítico 19 vemos que o dever dos juízes de julgar com justiça é uma extensão da necessidade de amar o próximo. Depois de mandar amar os “filhos do teu povo” (v. 18) e também “o estrangeiro” (v. 34), Deus explica que isso inclui a necessidade de não cometer injustiça no juízo. Amar ao próximo, então, inclui providenciar os meios para que meu próximo tenha um julgamento justo diante dos magistrados civis. Esse é o contexto para entender o que é dito sobre “olho por olho”, que significa simplesmente que a pena por um crime deve ser proporcional ao delito.
Alguns crimes são mais graves do que outros. A Lei de Deus nos diz exatamente qual é a gravidade dos crimes e, com base nisso, nos diz o tipo de pena que deve ser aplicada pelos juízes que julgam tais crimes. Sem um padrão de justiça que diga exatamente qual é a gravidade dos crimes para que as penas sejam aplicadas, os magistrados civis não seriam capazes de obedecer o mandamento de Deus: “Não cometereis injustiça no juízo” (Lv 19:35), “a justiça, somente a justiça seguirás” (Dt 16:20).

Concluímos, então, que abolir o “olho por olho, dente por dente” significa abolir a justiça de nossos tribunais, pois seria abolir o princípio de que a pena por um crime deve ser proporcional ao delito. A Bíblia não trata o “olho por olho” como contrário ao amor. Pelo contrário, trata como extensão do amor, na medida que trata a existência de tribunais justos como uma extensão do amor. Se sob o Novo Testamento, os magistrados continuam tendo que ser justos, segue-se que o “olho por olho” é confirmado e continua a vigorar.

 

3-Jesus aboliu a lei de talião?

Aqueles que argumentam que o “olho por olho” foi abolido apelam para as palavras de Jesus no Sermão da Montanha:
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”.
Mateus 5:38-39
 
Este texto pode ser facilmente entendido se partimos do contexto maior de que o propósito de Jesus no Sermão da Montanha não era o de anular ou abolir a Lei de Deus revelada por meio de Moisés, mas de confirmá-la e refutar as distorções dos escribas e fariseus:
 
“Não cuideis que vim destruir a Lei ou os Profetas: não vim revogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da Lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”.
Mateus 5:17-20
 
Jesus criticou aqueles que violam os mandamentos da Lei, por menor que sejam. Isso inclui os mandamentos sobre a necessidade dos juízes serem justos e julgarem com justiça. Jesus explicitamente argumentou com base na justiça dos tribunais alguns versículos depois:
“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil“.
Mateus 5:25-26
 
O que Jesus explicou ai é simplesmente uma aplicação prática do “olho por olho”. Alguém tinha trapaceado seu próximo e, por conta disso, é denunciado e coagido a pagá-lo pelos juízes e oficiais. Jesus não critica os juízes por isso. Este é o sentido original do “olho por olho”. O problema é que os escribas e fariseus distorciam a Lei de Deus para benefício próprio (cf. Mt 15:1-9). “Ouvistes que foi dito” se refere a maneira com que a Lei era transmitida e ensinada desde os antigos: Por isso Jesus disse que nossa justiça deveria exceder a justiça dos escribas e fariseus. Devemos guardar os mandamentos de Deus, por menor que sejam, e isso inclui os mandamentos sobre a necessidade de estabelecer tribunais justos. Quando Jesus comentou o “olho por olho, dente por dente”, Ele não estava criticando o próprio mandamento que fora dado por Deus, mas a maneira com que era ensinado e aplicado pelos escribas e fariseus. 
Os escribas e fariseus ensinavam que este mandamento incitava a vingança pessoal. Mas, como já foi demonstrado aqui, a própria Lei proibia a vingança pessoal. O que Jesus fez foi reafirmar o que a própria Lei já ensinava sobre o perdão e criticar a maneira com que isso era ensinado e defendido pelos escribas e fariseus.
Comprovando tudo isto, Jesus também diz:
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus”.
 Mateus 5:43-44
Novamente, Jesus não estava criticando qualquer mandamento da própria Lei. Ele está dando continuidade à mesma crítica que Ele havia feito dos escribas e fariseus sobre interpretar a Lei de forma a favorecer seus próprios interesses. A Lei não autoriza, em lugar nenhum, a odiar nossos inimigos. Pelo contrário, a Lei manda respeitar nosso próximo independente dele ser nosso inimigo ou não. Isso era uma inferência equivocada dos escribas e fariseus que foi devidamente corrigida por Jesus.

 

4-Olho por olho, hoje e sempre

“Olho por olho, dente por dente”, tem um significado muito específico no contexto original. O mandamento não autorizava a vingança pessoal, somente a justiça pública administrada por juízes. O mandamento exige simplesmente que os juízes julguem com justiça, retribuindo o crime de forma que seja proporcional ao delito. Este princípio, além de não ter sido abolido, permanecerá, não somente até o fim do mundo, mas até mesmo na eternidade.
Por que digo até mesmo na “eternidade”?
Porque o “olho por olho, dente por dente” é a base pela qual Deus condena os réprobos ao inferno e também foi o princípio pelo qual Deus exigiu a expiação de Cristo como base para salvar os eleitos. O tormento consciente eterno no inferno é uma pena proporcional ao delito de sermos pecadores não arrependidos contra um Deus infinitamente santo. A condenação dos réprobos na eternidade, portanto, não é outra coisa se não a aplicação do “olho por olho” na eternidade. Da mesma forma, a expiação de Cristo na cruz como base para salvar os eleitos é proporcional ao que os eleitos deveriam sofrer no inferno por causa do valor infinito da pessoa de Cristo. Portanto, a expiação de Cristo na cruz foi simplesmente a aplicação do “olho por olho” contra Cristo em nosso lugar, em relação à condenação eterna que merecíamos.
O “olho por olho”, então, não foi de qualquer maneira abolido. Deve ser aplicado pelos juízes para que governem com justiça, foi aplicado por Deus na cruz contra Cristo e será aplicado no juízo final contra os réprobos quando forem entregues ao lago de fogo e enxofre.

 

5-Conclusão

Se todo o homem cumprisse com o mandamento de respeitar o próximo como a si mesmo a Lei não era necessária, mas infelizmente neste mundo o que mais vemos é injustiça e egoísmo.
Deus para ser Deus tem que ser justo e sua lei tem que transparecer essa justiça, ora isso não agrada ao impio (que só gosta de ver a justiça aplicada aos outros) e como tal ainda hoje tenta distorcer a justiça de Deus, tal como os fariseus o fizeram. Jesus veio corrigir a má interpretação da Lei dando-lhe pleno entendimento, a Lei é Justa e Boa, o homem é que é mau. Se o homem quer justiça tem que a aceitar tal como ela é, quem não ama a justiça não tem lugar entre os justos!

 Jesus assumiu na cruz a responsabilidade pela criação e pelo livre arbítrio dado a cada uma das criaturas

 
Mas mais do que Justo, Deus é Amor e Misericórdia e pelo sacrifício de Jesus todos podem ser salvos independentemente do seu pecado, isto porque Ele já pagou pelo seu delito, basta acreditar, crer e invocar o seu nome e qualquer homem será salvo independentemente do seu pecado, podendo voltar a casa e ter a vida eterna.
Para terminar, não devemos esquecer que a Lei é dada a uma sociedade (judeus) que era na altura guiada por Deus, hoje em dia a sociedade humana está muito longe de Deus tornando a aplicação da lei de talião pelo homem mais discutível, mas ainda assim ninguém (que rejeita Jesus) se livrará dela no tribunal divino ao qual todos os humanos comparecerão, nenhum se livrará do Julgamento. Aí podemos ter a certeza que a Lei de Talião será aplicada justamente, sendo assim o meu conselho é o arrependimento por Jesus nosso Senhor, pois só com ele alcançaremos a misericórdia.
 
 
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Mateus 5:7

Referências:

(1 ) Porque acredito na Bíblia (Parte 3) – A Justiça Divina
http://www.nunes3373.com/news/porque-acredito-na-biblia-%28parte-3%29-%E2%80%93-a-justi%C3%A7a-divina/?utm_source=copy&utm_medium=paste&utm_campaign=copypaste&utm_content=http%3A%2F%2Fwww.nunes3373.com%2Fnews%2Fporque-acredito-na-biblia-%2528parte-3%2529-%25e2%2580%2593-a-justi%25c3%25a7a-divina%2F

Fonte:

Olho Por Olho, Dente Por Dente.
https://resistireconstruir.wordpress.com/2013/05/10/olho-por-olho-dente-por-dente/