O enigma "Abiatar" em Marcos 2 RESOLVIDO

13/12/2022 14:33
                     
 
As declarações de Jesus são em regra controversas. Isso não é surpreendente, pois Ele costuma ser desafiador, divisivo, surpreendente e sempre profundo. Quando se trata de Marcos 2:23-28 , Suas palavras são excecionalmente controversas porque aqui Ele parece se ter equivocado. Mas, como veremos, Jesus jamais se equivoca e sabe sempre muito bem o que diz.
 

O problema

Ao recontar a história de Davi comendo os pães da proposição, Jesus se refere a Abiatar como o sumo sacerdote, quando na verdade seu pai Aimeleque é que é referido como tal (1 Sm 21).
Como explicar essa discrepância uma vez que sabemos que Jesus - que era híperpreciso na escritura - disse algo que (aparentemente) parece estar errado?
 
Numerosas propostas foram oferecidas para resolver este problema:
 
1) Adulteração ou corrupção no texto original.
2) As palavras de Jesus deveriam ser traduzidas como “no texto sobre Abiatar” em vez de “no tempo de Abiatar” (ver postagem recente de Craig Blomberg ).
3) O evento em 1 Sam 21 era comumente associado ao sacerdócio de Abiatar.
4) Marcos ou mesmo Jesus, cometeram um erro e se referiram ao sumo sacerdote errado na época de Davi.
 
Obviamente, a última sugestão não é uma opção para aqueles com uma visão elevada das Escrituras, até porque se Jesus se tivesse enganado, provavelmente Marcos teria corrigido o texto, mas não o fez, assim como não o fizeram copistas posteriormente, o que leva a crer que Abiatar é realmente o nome a ter em conta. Mas efetivamente não surpreende que se possa chegar a essa conclusão dadas as restantes alternativas.
 

A solução

Esta é certamente uma passagem complicada, mas como veremos, também aqui há uma razão mais profunda para Jesus ter referido Abiatar e não Aimeleque.
Em - From Creation to New Creation –  uma série de ensaios em homenagem a GK Beale – acho que Nicholas Perrin dá uma razão convincente para Abiatar estar nesta história; uma razão proposital e teológica. Seu ensaio deve ser lido na íntegra para obter todo o argumento, mas tentaremos fazer um resumo aqui.
 

O TEMPLO, UM MESSIAS DAVÍDICO E UM CASO DE IDENTIDADE SACERDOTAL EQUIVOCADA

 
Existem dois estágios básicos no argumento de Perrin:
O termo “sumo sacerdote” é “mais elástico do que a maioria dos comentaristas estão dispostos a conceder” (p166). Embora houvesse tecnicamente apenas um sumo sacerdote por vez, o sumo sacerdócio era uma oligarquia, onde o título também é estendido a outros adequados para o papel, nomeadamente em herança hereditária como Aimeleque e Abiatar. Esta afirmação é apoiada pelos escritos de Josefo e alguns exemplos no NT, como por exemplo Sceva ( Atos 19:14 ), que certamente não era o sumo sacerdote na época, mas é referido como um. Ele provavelmente era descendente do sumo sacerdote e foi chamado de “sumo sacerdote”. 
Também temos o caso de Anás e Caifás, onde ambos eram sumos sacerdotes visto que Caifás já tinha abdicado para seu genro Anás, mas pelo título ser vitalício, Caifás manteve a designação, vemos isso claramente por exemplo em Lucas 3:
"Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias."

Lucas 3:2
 
Tudo isso para dizer que, no uso do primeiro século, seria perfeitamente normal referir-se a Abiatar como sumo sacerdote, apesar de Aimeleque ocupar o papel formal.
Portanto, não é tecnicamente incorreto Jesus chamar Abiatar de sumo sacerdote, mas a questão ainda permanece:

Por que se referir a Abiatar como sumo sacerdote quando Aimeleque ainda teria sido a escolha mais natural, já que ele estava sentado no papel formal de sumo sacerdote e desempenhou um papel na história?

Esta resposta requer um pouco mais de aprofundamento teológico.
Perrin argumenta que Marcos 2:23-28 deve ser lido à luz do conflito maior entre Jesus e seus seguidores e o sumo sacerdote e seus seguidores, particularmente com a rejeição contínua de Jesus ao atual sacerdócio do templo. Jesus redefine quem cumpre os padrões de pureza ( Marcos 7:18-23 ), Ele purifica o templo ( Marcos 11:15-19 ), proclama-Se a verdadeira fonte de perdão ( Marcos 2:1-12 ) e refere-se à liderança do povo de Israel como inquilinos perversos, Seus seguidores como verdadeiros inquilinos e Ele mesmo como a pedra angular do novo templo ( Marcos 12:1-10 ).
Marcos 2:23-28 é outra cena neste conflito contínuo entre Jesus e seus seguidores e o estabelecimento religioso. O ponto é que, assim como Davi e seus seguidores foram autorizados a comer os pães da proposição em 1 Sam 21, também Jesus e Seus seguidores têm as mesmas prerrogativas que o verdadeiro povo do templo. Marcos 2:23-28 não deve ser entendido como um debate ético sobre a Torá, mas sim um anúncio de que Deus vai transferir a ordem sacerdotal da liderança oficial do templo, que “em sua resistência ao verdadeiro Filho de David eram passíveis de julgamento, para seus próprios discípulos”.
 

Isso leva à resposta de “porquê Abiatar?”

Abiatar é descendente do infiel sumo sacerdote Eli, a quem foi prometido o julgamento de Deus ( 1 Sm 2:30-36 ) em sua linhagem sacerdotal. Este julgamento é cumprido quando Abiatar se junta à rebelião de Adonias contra o rei davídico Salomão ( 1 Reis 1:7 ). Salomão responde a esta traição depondo Abiatar em favor de Zadoque ( 1 Reis 1:8 ; 2:26-27 ). Assim, enquanto Aimeleque era o sumo sacerdote na história de Davi, Jesus escolhe se referir a Abiatar, “como um emblema de um sacerdócio rebelde e, portanto, falido” que iria ser finalmente deposto. 

Jesus está dizendo que Ele e Seus seguidores são como Davi e seus homens, mas a liderança religiosa é como Abiatar e enfrenta uma futura rejeição semelhante de Deus, que logo viria a acontecer pós a destruição do templo e erradicação da religião judaica em seus moldes ritualísticos.

Como sempre, Jesus é polémico, mas não por se esquecer de um detalhe! Algo mais profundo e irônico está em jogo aqui. Embora esta seja uma explicação profunda, em essência é elegantemente simples. Jesus se identifica com Davi (o escolhido de Deus) e seus oponentes com Abiatar (o sacerdócio sob o julgamento de Deus).
Sendo assim vemos mais uma vez Jesus em suas afirmações polémicas a trazer verdades mais profundas, mas igualmente desafiadoras no estudo da escritura, que apenas se revelam aos que buscam diligentemente.
 

Fonte:

POR QUE JESUS NÃO ESTAVA ERRADO SOBRE ABIATAR (MARCOS 2:23-28)
http://mydigitalseminary.com/why-jesus-wasnt-wrong-about-abiathar/